Um Bate-Papo Exclusivo com um dos Grandes Ícones da Bossa Nova, Sérgio Mendes

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Colunas, Little Brazil

Um Bate-Papo Exclusivo com um dos Grandes Ícones da Bossa Nova, Sérgio Mendes

By Karla Rensch

Bossa nova significa bem mais que o misto de um ritmo encantador que simultaneamente embala o corpo e acalenta a alma. É uma peculiaridade da cultura brasileira, nasceu na zona sul do Rio de Janeiro na década de 50 e sua melodia cativante deriva do Samba com influência direta do Jazz. No decorrer dos anos, tornou-se um dos movimentos mais influentes dentro da música popular no Brasil (MPB) e ganhou proporções mundiais devido a sua leveza, alegria e simplicidade.

Nessa atmosfera de sucesso, o teatro “The Ridgefield Playhouse” trará no dia 17 de outubro para CT, depois de uma explosiva apresentação no Rock In Rio, Sérgio Mendes, um dos maiores pilares da música popular brasileira, mundialmente conhecido por sucessos imortalizados em suas composições.

Em entrevista exclusiva ao Jornal Tribuna, Sérgio, que iniciou a sua promissora carreira musical ao lado de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, compartilhou um pouco de sua trajetória nos palcos da vida.

sergio-mendesOnde você reside no momento? Brasil ou USA?

Sérgio – Em Los Angeles, nos Estados Unidos.

USA- Nós sabemos que você saiu do Brasil no auge de sua carreira, o que lhe levou a escolher o USA como segunda pátria?

Eu saí, quero dizer, quando eu digo sair não é bem “sair” pois eu volto sempre ao Brasil, (risos) no ano de 1964, era tempo da revolução e estava tudo muito complicado por aqui, (Rio de Janeiro) então resolvi mudar para os Estados Unidos e lá construí a minha carreira. Foi lá que fiz o álbum Brasil 66 e toda a minha carreira discográfica e musical.”

Como você se descobriu músico?

Eu aprendi música clássica em torno dos sete anos e depois aos doze descobri o jazz que muito me influenciou… Nos anos de 1959 e 1960 eu tocava em um night club em Copacabana chamado “Bótolo Bar” e foi lá onde começou tudo. Em 1962 houve um concerto de Bossa Nova no Carnegie Hall, foi a primeira vez que houve um show de música brasileira nos Estados Unidos e nós fomos, o Tom Jobim, o João Gilberto, eu e a minha banda, enfim ali foi o início para mim, aquela ida a Nova Iorque.”

Aqui na américa existe um grande incentivo musical nas escolas, desde cedo as nossas crianças são apresentadas a esse universo rico e mágico do mundo musical, você acha que existe uma idade certa para começar a estudar música?

Eu acho que não. Eu acho que o talento, enfim a musicalidade vem muito cedo. Ontem por exemplo, eu estou gravando um CD novo, fazendo algumas coisas aqui no Brasil, e daí que conheci um menino de 10 anos, percussionista e fiquei impressionado com a habilidade dele, com a musicalidade, então acho que não existe isso de idade. Olhe eu fiquei entusiasmadíssimo com esse menino ontem, Pedrinho, o nome dele.”

Caso alguém decida começar a estudar música depois de uma certa idade, uns 40 anos, ainda é possível aprender?

E claro que sim! Depende da curiosidade da pessoa, eu acho que a curiosidade é um fator muito importante na criança, no jovem, no adolescente, no adulto… Eu acho que o que move a gente é a nossa curiosidade.”

E você acha que a paixão é o motor para isso?

A paixão é o motor, claro. Você descobrindo a sua paixão, descobre o motivador de sua vida, não é?”

A sua vocalista, Gracinha Leporace, é também sua esposa, desde quando vocês cantam juntos?

Sim, ela é uma de minhas vocalistas, estamos casados a mais de 40 anos, é uma cantora maravilhosa e vai estar com a gente em Connecticut.”

Como aconteceu esse encontro de dois grandes talentos musicais e como tornou-se a parceria de sucesso que é hoje?

Eu falo bastante essa palavra em inglês, serendipity, que é uma mistura do acaso com a sorte. O nosso encontro foi tudo, foi um fator de serendipity…  Foi mágico.”

A pergunta que não quer calar…. O que foi que aconteceu primeiro entre vocês, a música ou o amor?

(risos) Ah! Eu não sei, acho que as duas coisas. Quando eu vi a Gracinha cantar pela primeira vez ela tinha 17 anos, então eu fiquei apaixonado não só por ela como também pela voz dela…”

Você compôs algo como o chico compôs “Cálice”, de conteúdo anti-ditatorial, mas maquiado de outra coisa?

Olha, meu filho tinha acabado de nascer, em Abril de 1964 e eu confesso para você que a minha intuição me dizia que iriam acontecer coisas terríveis no Brasil com a ditadura. Então eu falei que estava na hora de sair e construir a minha carreira, foi quando eu fiz o Brasil 66 dois anos depois, que foi a primeira vez que uma música em português virou sucesso mundial com ‘mais que nada’”.

Eu como uma eterna apaixonada pela música brasileira, tenho a curiosidade de saber sobre as influências  do músico. No seu caso, qual a sua maior influência?

Eu acho que tudo, a música que eu ouvia, a música clássica, os compositores brasileiros como Jobim e Villalobos, os grandes músicos de jazz Charlie Parker, Coltrane, Rod Stewart, foi uma soma de tudo, dos artistas, dos pintores, das viagens, das pessoas que conheci.”

Como você define a música brasileira?

Eu acho que a música brasileira tem uma  grande qualidade melódica, harmônica  e rítmica que é diferente de outras músicas, inclusive da América Latina. Quando você ouve uma melodia brasileira você sabe que aquilo tem o perfume do Brasil. É uma música alegre e que contagia as pessoas pela sua simplicidade.”

Se a sua música pudesse ter um impacto por gerações, qual o impacto que você gostaria que tivesse?

É difícil falar sobre isso, não é? Eu sou muito de viver o momento, e tenho muita gratidão por estar tendo uma longa carreira, fazendo o que eu gosto de fazer, dando prazer aos outros, para mim isso é uma grande alegria. Todo dia que eu acordo eu agradeço por estar vivo e vamos em frente!”

No seu ponto de vista, como foi a aceitação da música brasileira em solo americano, pelo público americano?

Eu acho que tudo tem a ver com as canções, quando “Mais que Nada” estourou em 1966 e depois de 40 anos em 2006, acho que a aceitação tem a ver com isso. Eu vejo a música como uma língua universal, por exemplo, eu toquei dois meses atrás na Indonésia, toco muito na Ásia, no Japão, na França… E isso é o lindo da música, a linguagem universal é o que a gente carrega conosco quando viaja.”

O Brasileiro, que reside no USA, é público frequente em seus shows por aqui, ou a plateia é mais americana?

E difícil de dizer, tem sempre brasileiros em minha plateia. Eu faço sempre o Hollywood Bowl em Los Angeles que é um lugar lindo, com capacidade para dezoito mil pessoas, mas depende muito do lugar. Você sabe que a população brasileira é enorme nos Estados Unidos, então sempre tem muitos brasileiros, mas também muitos americanos, filipinos e muitos japoneses.”

Não existe ritmo mais brasileiro que a bossa nova (Sobre o álbum Brasil 66) é verdade que foi depois dele que você começou a compor em inglês? se sim, como foi para você começar a fazer música em inglês?

Então o Brasil 66 é exatamente isso que o que você falou, canções brasileiras e também a ideia de “abrasileirar” certas canções como por exemplo The Fool on The Hill do The Look Of Love. Por que como eu gosto muito de melodias eu acho que quando eu ouvi o disco dos Beatles eu achei que eu poderia dar uma outra interpretação a música com o sabor de Brasil, com uma levada brasileira, enfim. Então isso aconteceu também com o Never Gonna Let You Go e músicas de outros compositores.”

É verdade  que um dos seus mentores foi nada menos que o saudoso Tom Jobim?

Com certeza! Eu considero ele o maior compositor indiscutivelmente da Música Popular Brasileira, eu acho que as pessoas conhecem as canções brasileiras devido a suas composições que são as mais lindas do Brasil. Ele teve suas canções gravadas não somente por mim, mas também por Frank Sinatra, Sara Vaughan e outros cantores mundiais.”

E também é de conhecimento público que você já teve diversas parcerias com os grandes nomes da música nacional, você poderia compartilhar conosco alguma história que marcou a sua carreira como compositor/músico?

“Agora eu não estou lembrando. Porém posso compartilhar algo atual, agora mesmo estou saindo para o estúdio porque ano que vem eu estou lançando um novo CD, estou indo encontrar com meu grande amigo Carlinhos Brown que eu considero um grande compositor. E estou também gravando um documentário sobre a minha vida que sairá em março ou abril do ano que vem com exposição mundial. Será também apresentado no Festival de Cannes. Está sendo feito produzido pelo mesmo diretor americano que gravou um especial do John Lennon, John Contrane e etc.”

Vc é um dos três brasileiros que tiveram o privilégio de conhecer Elvis pessoalmente no ano de 1956, ao lado de Cauby Peixoto e Leny Eversong, como que foi esse encontro tão raro e memorável?

Foi um encontro muito rápido. Eu estava trabalhando com o Paul Anka e o Elvis veio em nosso camarim para dar um abraço nele e em mim também. Foi uma coisa muito rápida! Não tive nenhum contato imenso com ele, não deu tempo para isso. Só deu tempo de fazer a foto.”

Vimos que você arrasou no palco do Rock in Rio cantando samba com a Fergie, você acha válido o feat com artistas da nova geração?

Essa coisa de compartilhar com artistas mais jovens é uma coisa que dentro da minha curiosidade, eu sempre gostei. Quando eu fiz o disco Timeless eu tive participações como John Legend e Justin Timberlake e é uma coisa que eu gosto muito. A Fergie é minha amiga, ela é cantora do The Black Eyed Peas que como você sabe, gostam muito da nossa música então foi um momento muito legal. O Rock in Rio está trazendo um pouco de felicidade para esta cidade que está precisando. Eu acho que foi um evento importante no calendário do Brasil.”  

Você tem uma mensagem para o público Brasileiro?

Aos meus amigos Brasileiros, eu espero que venham ver o nosso show e vamos dançar  e cantar juntos!”

Na ocasião do show, a artista plástica brasileira, Verônica Martins, estará presente expondo suas obras e desenhando rostos em grafite em tempo real. Em 2012, Verônica criou a workshop, “Eu Quero Ser um Artisita” voltado para acolher e exercitar a criatividade de crianças e adolescentes, além de reduzir o número de horas que elas passam em frente a um computador.

“Agradeço imensamente ao Tribuna por sempre incentivar e divulgar a arte imigrante dentro da comunidade americana,” concluiu Martins.

Sérgio Mendes & Brasil 2017 será realizado na terça-feira, 17 de outubro, às 20hs no The Ridgefield Playhouse localizado à 80 East Ridge in Ridgefield, CT. Uma  degustação de vinho acompanhada por petiscos brasileiros patrocinada pela Padaminas Bakery, Buffet and BBQ será oferecida no lobby do teatro às 19h15.

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September 30, 2017

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