Aprendizes de inglês: as escolas de CT ignoram um caminho comprovado

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Aprendizes de inglês: as escolas de CT ignoram um caminho comprovado

By Jacqueline Rabe Thomas / CT Mirror - Tradução: Fernanda Magrini Sinha

Quando chegou a hora de Aracelis Hidalgo matricular seus dois filhos na escola, ficou claro que a escola pública local em Bridgeport não ensinaria espanhol — a única língua que ela e seus filhos entendem.

Em vez disso, seus filhos foram colocados em aulas ministradas em inglês e algumas extras. Os avisos da escola eram enviados em inglês e nenhum tradutor estava disponível para ajudá-la a se comunicar com os professores.

“Não deveria ser assim”, disse Hidalgo através de um tradutor. Sua filha falante de espanhol, que começará a escola no outono, sentou-se em seu colo. “Eu gostaria que as escolas tivessem os dois idiomas”.

A experiência da família é comum. As aulas somente em inglês com suporte adicional são a abordagem primária nas escolas públicas de Connecticut para ajudar os alunos a aprenderem inglês — e está produzindo resultados desastrosos.

Em Bridgeport, apenas 47% dos aprendizes de inglês que receberam apoio linguístico mostraram algum progresso geral nos testes de proficiência em inglês durante o ano letivo de 2013-14, último ano no qual o estado rastreou os dados. Em Hartford, que matricula mais aprendizes de inglês do que qualquer outro distrito de Connecticut, 46% mostraram algum progresso.

Ao longo dos últimos dois anos, apenas um terço dos alunos de inglês atendeu o objetivo do estado de melhoria em outra medida-chave: o teste de avaliação de inglês padronizado que todos os alunos fazem. O Departamento de Educação do Estado diz que os aprendizes de inglês devem melhorar seu desempenho nesse teste em pelo menos 3% ao ano.

Para Connecticut — onde um em cada 10 alunos da escola pública fala espanhol como idioma principal — a defasagem acadêmica entre estudantes hispânicos e seus colegas brancos estão entre as maiores do país. Para aqueles que ainda são considerados aprendizes de inglês no 8º ano, a diferença entre seus colegas na capacidade de entender e usar o inglês é a pior do país.

“São nossos aprendizes de inglês que ficaram defasados em todos os nossos resultados nos últimos seis anos na educação em Connecticut”, disse a comissária estadual Dianna Wentzell durante uma entrevista. “E isso é inaceitável”.

No entanto, Connecticut falhou ao adotar o único modelo para aprendizes de inglês que a pesquisa mostra ser o melhor.

O que funciona?

Na Rigler Elementary School em Portland, Oregon, os alunos do 5º ano de Risa Muñoz devem falar inglês na primeira metade do dia e espanhol na segunda.

Em uma tarde recente, pouco depois de retornarem do recesso — os alunos escolhem qual idioma usar — Muñoz estava pedindo em espanhol durante uma aula de história sobre a 2ª Guerra Mundial que os alunos apresentassem uma lista de regras sobre quais partes de um artigo eram reais e quais eram propaganda.

“I know”, respondeu um estudante em inglês, levantando ansiosamente a mão no ar.

Muñoz deu ao estudante um olhar, mas não o chamou.

“Lo sé”, ele disse rapidamente.

“Si”, ela respondeu, e ouviu sua resposta em espanhol.

As escolas com aulas em inglês e em outra língua são comuns em Portland. Aqueles que falam inglês limitado ou nada, frequentam a aula com falantes nativos de inglês cujos pais estão ansiosos para que eles colham as vantagens sociais e econômicas de aprender outro idioma.

A abordagem é chamada de “bilíngue”.

Em Connecticut, os alunos estão mais propensos a serem colocados em salas de aula tradicionais e receberem apoios que variam de 30 minutos semanais de um auxiliar do professor na sala de aula, que pode ou não falar a língua nativa do aluno.

Cerca de um quarto dos aprendizes de inglês do estado estão em programas bilíngues de qualidade variável, em que a instrução deve começar na língua nativa do aluno e transitar para o inglês durante o ano letivo. Com poucas exceções, o máximo de tempo que um aluno pode ficar em tal programa é 30 meses, e milhares saem todos os anos sem atingir a proficiência.

Em Portland, um em cada cinco alunos do jardim de infância foi matriculado em um programa bilíngue. Entre os jovens que se matricularam na escola falando pouco ou nenhum inglês neste ano letivo, 42% estavam em um dos 15 programas bilíngues do distrito para o jardim da infância.

O objetivo de Portland é continuar expandindo os programas bilíngues até que três quartos dos aprendizes de inglês dividam seus dias entre a instrução nessa língua e em sua nativa. Os programas terão notas adicionais à medida que os alunos do jardim de infância passem de ano, e as autoridades distritais esperam abrir novos programas em três escolas nos próximos dois anos, levando o programa a 18 das 57 escolas primárias do distrito.

Os alunos permanecem no programa durante o ensino médio.

Ao longo dos últimos nove anos, o número de estudantes matriculados em um dos programas bilíngues do distrito — agora oferecido em espanhol, mandarim, japonês, russo e vietnamita — saltou de 2.540 para 5.020, cerca de 10% dos 50 mil alunos do distrito.

“Conseguimos aumentar as oportunidades expandindo os programas”, disse Debbie Armendariz, diretora sênior de bilinguismo de Portland, durante uma entrevista. “Estamos dizendo aos pais da comunidade o que esse programa significa para os aprendizes de inglês — que esse é o único caminho para seu sucesso acadêmico. Isso não é verdade para nossos falantes nativos de inglês”.

Em Connecticut, menos de 2.000 dos 539.000 estudantes do estado estão matriculados em programas bilíngues, incluindo apenas 4% dos aprendizes de inglês, uma taxa que não mudou na última década. Alguns permanecem apenas até o 2º ano, enquanto outros continuam no ensino fundamental.

Muñoz, que anteriormente trabalhou em um distrito onde ensinava em inglês estudantes de língua espanhola, viu o impacto do bilinguismo durante seus três anos em Rigler.

“Vejo uma diferença na confiança, no orgulho de sua cultura e língua, e acho que é uma ótima maneira de construir o bilinguismo’, disse Muñoz. “Realmente ele é fundamental para fechar a defasagem de nossos alunos cultural e linguisticamente diversos”.

Muñoz disse que a abordagem bilíngue reforça a proficiência tanto na língua materna como na que o aluno está tentando aprender.

“Quando pensamos em nossos falantes de espanhol, se pudermos desenvolver suas habilidades linguísticas, realmente vemos suas habilidades transferidas para o inglês. Se eles têm uma base sólida, são capazes de ter sucesso em ambas as línguas”, disse ela.

As pesquisas realizadas por especialistas de fora sobre a abordagem do distrito ampliam seus pontos.

Pesquisas publicadas em abril no American Educational Research Journal e, em setembro no Foreign Language Annals acompanharam os alunos do jardim da infância até o 8º ano, que ganharam vagas nas escolas bilíngues de Portland. Os pesquisadores descobriram que as habilidades de leitura em inglês melhoraram muito mais rápido para estudantes de inglês nos programas bilíngues do que para aqueles que tiveram que frequentar aulas em inglês com outros apoios.

No 5º ano, os aprendizes de inglês de Portland em programas bilíngues estavam, academicamente, sete meses à frente de seus colegas e, no 8º ano estavam um ano à frente. Não houve diferença significativa no desempenho em matemática ou ciência, mas os estudantes bilíngues eram 14% menos propensos a continuarem sendo considerados aprendizes de inglês até o 6º ano.

Estudante bilíngue na Silvermine Elementary School em Norwalk, um dos poucos sistemas escolares de Connecticut que expandiu seu programa bilíngue.

“Você não poderia pedir melhores resultados para esses aprendizes de inglês”, disse Robert Slater, coautor da pesquisa.

Falantes nativos de inglês que participaram de um programa bilíngue eram academicamente iguais a seus colegas de programas tradicionais. Mas eles também aprenderam uma segunda língua, e Portland tem uma longa lista de espera de alunos cujos pais estão ansiosos para que eles se tornem bilíngues.

O estudo de Slater, financiado pela pesquisa do Departamento de Educação dos EUA, é respeitado pelos especialistas, porque ele pesquisou os alunos matriculados nos programas de forma aleatória através da loteria.

Elizabeth Howard, professora associada de educação bilíngue da Escola de Educação Neag da Universidade de Connecticut, caracterizou como “enormes” os ganhos que os aprendizes de inglês tiveram no estudo de Portland.

Howard sintetizou várias pesquisa sobre várias abordagens para a defasagem dos aprendizes de inglês e diz que não há dúvida de que o bilinguismo, quando realizado com fidelidade, é a melhor abordagem.

“Numerosos estudos de pequena e grande escala provaram e reprovaram a eficácia do bilinguismo”, disse ela durante uma entrevista.

Uma revisão do Departamento de Educação dos EUA e do American Institutes for Research descobriu que “um número crescente de pesquisa também sugere que a abordagem oferece mais oportunidade para que os ELs atinjam níveis mais elevados de desempenho acadêmico, além de mais motivação e senso de identidade”.

Virginia P. Collier e Wayne P. Thomas, pesquisadores e professores eméritos da Universidade George Mason, que passaram as últimas três décadas estudando programas para aprendizes de inglês em dezenas de distritos escolares em todo os EUA, são mais pontuais em suas avaliações de programas bilíngues.

“Este não é apenas um relatório de pesquisa, é um alerta”, a dupla publicou um artigo em 2004 no National Association of Bilingual Education Journal of Research and Practice. Resumindo sua pesquisa em cinco distritos escolares: “Ficamos maravilhados com os resultados dos estudantes participantes de programas bilíngues”.

“A escolaridade bilíngue fecha a defasagem acadêmica… Este é o único programa para aprendizes de inglês que completa essa lacuna”, concluiu a pesquisa.

“As análises dos resultados [de testes padronizados] demonstram que os estudantes hispânicos permanecem ou estão próximos academicamente em ambos os idiomas, e se instrução contínua é fornecida em espanhol e inglês, a grande maioria será proficientemente bilíngue”, escreveram, acrescentando que esses alunos também têm taxas de abandono escolar mais baixas e presenças mais altas.

Sua pesquisa de 2009 na Carolina do Norte descobriu que os alunos em programas bilíngues “normalmente ficam pelo menos um ano escolar à frente” dos aprendizes de inglês que não participaram de um programa bilíngue. A defasagem também foi significativamente menor.

Cérebros bilíngues: os benefícios

Parlez-vous français? ¿Habla Español? Sprechen Sie Deutsch?

Para quem é, a neurociência diz que o bilinguismo oferece benefícios tanto na sala de aula quanto ao longo da vida.

Os hemisférios esquerdo e direito do cérebro de um bilíngue mostram atividade nos lobos frontais. Green destaca regiões com alta atividade durante a mudança de idioma. As cores vermelho-amarelo mostra regiões onde os adultos bilíngues mais velhos têm maior atividade do que os monolíngues.

A pesquisa mostra que o bilinguismo afeta principalmente o lobo frontal do cérebro, que abriga sua função executiva — gerenciando inputs, focando no que é relevante e ignorando distrações. Isso significa que os bilíngues são capazes de melhorar a resolução dos problemas, a multitarefa e focar e filtrar informações relevantes.

Naja Ferjan Ramirez, pesquisadora do Instituto de Ciências do Cérebro da Universidade de Washington, resume o que está acontecendo lá como uma “ginástica para o controle de tráfego aéreo do cérebro”.

“Você deve inibir constantemente um idioma para ativar o outro”, explicou durante uma entrevista.

Ellen Bialystok, professora de psicologia e presidente do Laboratório de Desenvolvimento Cognitivo da Vida da Universidade de York, Canadá, disse: “Nós sabemos por meio de grandes pesquisas que o desenvolvimento da função executiva em crianças é a coisa mais importante que elas fazem”.

“Quando o cérebro de um aluno tem dificuldade em priorizar inputs, isso leva a problemas de comportamento e atenção”, disse ela. “É por isso que eles não conseguem ficar quietos. É algo que eles precisam e devem desenvolver para aprender.”

Ser capaz de entender dois idiomas não resolve necessariamente os problemas da criança, mas os melhora, diz Bialystok.

“Quanto mais bilíngues as crianças forem, melhor serão no controle intencional”, disse ela, resumindo um estudo recente que completou. “Elas estão fazendo melhor do que fariam se não fosse pelo bilinguismo”.

Embora sempre se possa aprender uma segunda língua, a pesquisa é mesclada em quanto tempo dura o período crítico para aprender uma segunda língua, variando de 5 a 15 anos de idade.

“O cérebro é realmente o mais preparado para aprender a língua no nascimento, e depois lentamente, ao longo do tempo, essa capacidade de aprender duas línguas ao mesmo tempo, desaparece. Isso acontece muito cedo”, disse Naja Ferjan Ramírez, cuja pesquisa mostra que bebês de até 11 meses são capazes de processar qualquer língua a que são expostos.

O bilinguismo também tem benefícios à medida que as pessoas envelhecem. A pesquisa mostrou que os bilíngues foram capazes de responder mais rapidamente a circunstâncias exigentes e que ele ajuda a adiar as perdas relacionadas à idade em certos processos executivos. Ele também atrasa o início da doença de Alzheimer, mostram as pesquisas.

Diloreto Elementary & Middle School em New Britain, onde o programa bilíngue foi fechado há alguns anos.

Quem pode aprender outro idioma?

No entanto, tanto em Portland quanto em Connecticut, quais alunos conseguem se inscrever em um programa bilíngue — e ter a melhor chance de aprender outro idioma — baseia-se na sorte.

Em Portland, dezenas de estudantes do jardim de infância que falam inglês limitado ou nada, perdem a loteria de entrar em um programa bilíngue a cada ano.

E em Bridgeport, apenas 217 dos quase 3.000 estudantes do distrito que lutam com o inglês estão matriculados em programas bilíngues.

Fran Rabinowitz, que foi líder das Escolas Públicas de Bridgeport de 2013 a 2016, disse durante uma entrevista recente que tentou expandir os programas bilíngues no distrito e teve pouco sucesso. Mas, acrescentou: “Não tenho certeza se todos aderem a essa abordagem”.

Próxima semana: em Connecticut há muitas falhas na educação bilíngue, mas essa instrução fez poucos avanços, e alguns programas realmente foram encerrados.

A exploração do Mirror sobre as maneiras de fechar lacunas persistentes na educação é apoiada em parte por uma concessão da Solutions Journalism Network e da Fundação Nellie Mae. Veja mais sobre os projetos que eles financiam aqui. O Connecticut Mirror mantém o único controle editorial sobre o conteúdo dessa matéria.

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June 7, 2017

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