Médicos: mudanças climáticas já estão deixando as crianças americanas mais doentes

Veja esta matéria em English, Español

Saúde

Médicos: mudanças climáticas já estão deixando as crianças americanas mais doentes

By Honora Montano - New America Media

Uma coalizão de organizações médicas que representa mais da metade dos médicos americanos lançou uma campanha ontem para alertar políticos e público sobre os perigos que a mudança climática representa à saúde pública.

“Médicos em todas as partes do nosso país estão vendo que a mudança climática está tornando os americanos mais doentes”, diz a Dra. Mona Sarfaty em um comunicado.

Safarty é diretora de uma nova coalizão de médicos, chamada Sociedade Médica de Consórcio sobre Clima e Saúde (Medical Society Consortium on Climate & Health), e professora da George Mason University em Fairfax, Virgínia. “Os médicos”, diz ela, estão na linha de frente e veem os impactos nas salas de exame. O pior é que os danos são sentidos principalmente por crianças, idosos, americanos com baixa renda ou doenças crônicas e pessoas em comunidades de cor”.

O novo relatório do Consórcio sobre Clima e Saúde, que baseia-se nos relatórios revisados por pares, descreve a miríade de formas em que o clima já está piorando a saúde, inclusive causando asma e outras doenças respiratórias.

O aumento da propagação de doenças transmitidas por insetos, como o vírus Zika e a doença de Lyme mais comumente encontrada nos trópicos é outro risco, diz o relatório.

Sete em cada dez americanos acreditam que a mudança climática está acontecendo, de acordo com o Programa Yale sobre Mudanças Climáticas. Mas pouco mais da metade acredita que a mudança climática já esteja prejudicando não só a saúde pública, como outras áreas também. É aqui que os médicos podem desempenhar seu papel, diz a Dra. Aparna Bole, pediatra no Hospital Universitário de Cleveland, Ohio.

“Existe um grande consenso na literatura científica, de saúde pública e médica que agir sobre a mudança climática é uma das maiores, senão a maior, oportunidade de nosso tempo”, diz a Dra. Bole. “Como pediatra, estou interessada em proteger a saúde de todas as crianças. Para isso, um ambiente saudável é fundamental”.

As crianças estão entre as mais vulneráveis aos impactos da mudança climática na saúde, diz ela, em parte porque sua frequência respiratória é mais rápida que a dos adultos, tornando-as suscetíveis à má qualidade do ar. Riscos aumentados de doenças infecciosas e condições meteorológicas extremas podem ser ainda mais prejudiciais quando acontecem nos anos críticos de desenvolvimento.

“A OMS (Organização Mundial de Saúde) estima que 80% dos encargos na saúde com a mudança climática cairá sobre as crianças menores de cinco anos”, diz a Dra. Bole.

A asma encabeça a lista de problemas de saúde relacionados ao clima em muitas comunidades que já sofrem com taxas desproporcionais, como Cleveland, onde uma em cada cinco crianças afro-americanas tem asma. Muitas delas são pacientes da Dra. Bole e, ao cuidar delas, ela diz que já está observando os impactos das mudanças climáticas: aumento do calor, uma temporada de alergia mais longa e piora na qualidade do ar. Altas taxas de pobreza são um fardo adicional a saúde dessas crianças, diz ela.
A administração Trump desconsidera os perigos do clima

A nova administração irritou os grupos ambientalistas e de saúde com a proposta de cortar o orçamento da Agência de Proteção Ambiental (EPA). O novo administrador do EPA, Scott Pruitt, afirmou que há um “tremendo desacordo” sobre se o comportamento humano tem alguma ligação com a mudança climática.

A administração também anunciou que reverterá significativamente os regulamentos estritos da administração Obama sobre a poluição dos escapamentos dos veículos. Carros e caminhões representam cerca de um quinto das emissões que agravam o aquecimento global dos EUA.

Na semana passada, Mustafa Ali, chefe do programa de justiça ambiental da EPA, renunciou, dizendo que os novos líderes não deram “qualquer indicação de que estão focados ou interessados em ajudar” as comunidades vulneráveis, quando essas deveriam ser a prioridade máxima da agência.

Essa é uma visão que a Dra. Bole concorda: “As crianças que vivem na pobreza são desproporcionalmente afetadas pelos riscos à saúde ambiental, e as mudanças climáticas não são diferentes”, diz ela.

A primavera chegou várias semanas antes em grande parte do leste dos Estados Unidos este ano, e o mês passado foi o segundo mais quente registrado. Uma primavera adiantada traz o início da estação da alergia, e pode também significar a chegada da doença que carrega carrapatos e mosquitos.

“Médicos como eu hoje estão vendo as condições aparecerem fora de sua localização e época típicas”, diz a Dra. Samantha Ahdoot, pediatra em Alexandria, Virgínia. Ahdoot lembra que os pacientes tiveram que iniciar seus medicamentos antialérgicos muito mais cedo e perderem a escola por causa de reações graves.

Os médicos têm a “obrigação” de falar

Os médicos de família do país, obstetras e alergistas podem ser o melhor recurso do público para se manterem a salvo dos impactos climáticos. Uma pesquisa nacional de 2014 da Yale descobriu que os americanos veem seu médico de cuidados primários como a fonte mais confiável de informações sobre este tema, acima de organizações como o Centro de Controle de Doenças e a Organização Mundial de Saúde.

Molly Rauch é diretora de políticas da Moms Clean Air Force, uma organização nacional que defende o combate às mudanças climáticas e à poluição do ar. Ela diz que os médicos precisam dar aos pais como ela o quadro completo de como o clima está ligado à saúde de seus filhos.

“A asma é uma epidemia neste país”, diz Rauch. “Se a poluição do ar piora a asma, [os pais] querem saber disso. E se a mudança climática piorar a poluição do ar, realmente precisamos saber disso para cuidar de nossos filhos”.

O novo Consórcio, entre os quais a Academia Americana de Pediatria, a Academia Americana de Médicos da Família e a Sociedade Americana de Geriatria, entre outros, entregarão seu novo relatório aos membros do Congresso, à administração Trump e aos CEOs das Empresas Fortune 500 para impulsionar a transição dos combustíveis fósseis para energias renováveis.

“Temos uma obrigação moral de agir em seu nome”, diz a Dra. Ahdoot, membro do Consórcio. “Dada a nossa compreensão atual, a incapacidade de tomar medidas substantivas rapidamente para reduzir as emissões seria uma injustiça sem precedentes para todas as crianças de agora e do futuro”.

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Pin on PinterestShare on LinkedIn
March 27, 2017

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *