Parteiras Podem Ser a Chave para Reverter a Tendência de Mortalidade Materna

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Parteiras Podem Ser a Chave para Reverter a Tendência de Mortalidade Materna

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O Centro de Parto e da Mulher de Connecticut em Danbury fica a 50 minutos de carro da casa de Evelyn DeGraf em Westchester, NY. Grávida de seu segundo filho, a mulher de 37 anos não hesitou em ir até o centro – ela queria que seu parto fosse feito por uma parteira, não um médico.

DeGraf acreditava que os cuidados de parteiras eram mais pessoais e menos apressados do que os realizados por ginecologistas obstetras. Ela também sabia que um GO consideraria sua idade materna relativamente avançada e o histórico anterior de cesárea como um risco muito alto para tentar um parto vaginal.

Ela teve que dirigir cerca de 56 km para encontrar uma parteira, porque não há muitas.

Apesar do fato de que cerca de 85% das mulheres podem realizar o tratamento com parteiras, essas atendem cerca de 11% dos nascimentos em Connecticut, disse Holly Kennedy, professora de parteiras da Escola de Enfermagem de Yale. Em contraste, cerca de metade de todos os bebês na Inglaterra nascem por parteiras, de acordo com as estatísticas do Serviço Nacional de Saúde. Kennedy vê uma correlação direta entre o menor uso de parteiras e uma maior mortalidade materna.

“Se aumentassem as parteiras, evitaríamos mais de 80% das mortes maternas”, disse Kennedy. Em Connecticut, existem 211 enfermeiras-parteiras licenciadas, em comparação com 945 GOs licenciados, de acordo com registros do Departamento de Saúde do estado. Ao contrário de alguns outros estados, que empregam parteiras sem diplomas de enfermagem, Connecticut reconhece apenas enfermeiras-parteiras, que possuem diplomas avançados em enfermagem e treinamento adicional em obstetrícia.

Os Estados Unidos têm a maior taxa de mortes relacionadas à gravidez ou ao parto no mundo. Segundo a United Health Foundation, em 2018 a taxa de mortalidade materna para o país era de 20,7 mortes por 100.000 nascimentos por qualquer causa relacionada ou agravada pela gravidez, excluindo acidentes. Em Connecticut, a taxa de mortalidade materna é de 13,2.

Além disso, em Connecticut e em todo o país, as mulheres negras e seus bebês sofrem desproporcionalmente os piores efeitos da saúde relacionados à gravidez do que as mulheres brancas.

Bebês nascidos de mulheres negras têm probabilidade duas vezes maior de morrer no primeiro ano de vida do que bebês nascidos de mulheres brancas, e mulheres negras são 243% mais propensas do que mulheres brancas a morrerem de complicações relacionadas à gravidez, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças.

O segundo filho de DeGraf nasceu de parto normal no Danbury Hospital, assistido por uma enfermeira-parteira empregada pelo Connecticut Childbirth Center. Seu parto de baixa intervenção é comum em partos assistidos por parteiras que, estatisticamente, usam menos intervenções do que os médicos durante o trabalho e o parto.

As cesarianas, consideradas cirurgias de grande porte, carregam riscos bem estabelecidos: taxas mais altas de hemorragia, transfusões, infecções e coágulos – todas as principais causas de mortalidade materna, cujas taxas aumentaram em todo o país (com exceção da Califórnia) em 26,6% entre 2010 e 2014, de acordo com um estudo realizado pelo National Center for Biotechnology Information.

As parteiras também estão ligadas a taxas mais altas de nascimento fisiológico e menos resultados neonatais adversos, de acordo com um estudo nacional de 2018, que classificou os estados pelo quão bem as parteiras são integradas aos sistemas regionais de saúde. Connecticut caiu para o antepenúltimo lugar. Especialistas dizem que a baixa classificação se deve em grande parte à falta de acesso a parteiras. Muitas candidatas a enfermeiras-parteiras nunca terão a chance de treinar para o cargo em Connecticut.

“Em Yale, recebo pelo menos 100 candidatas para o nosso programa [enfermeira-parteira]. A maioria é altamente qualificada, mas eu só posso aceitar 25%”, disse Kennedy, autora do estudo de 2018. Ela explicou que a maioria da receita federal de educação em saúde é direcionada as escolas de medicina, limitando assim os recursos para a educação em obstetrícia, incluindo a capacidade de reembolsar os preceptores que supervisionam o treinamento clínico das estudantes enfermeiras-parteiras.

Aqueles que encontrarem vagas em um dos dois programas de enfermeira-parteira de Connecticut (Fairfield University oferece a prática de enfermagem em parto) podem enfrentar desafios para praticar após a graduação. Muitas enfrentam o obstáculo da dívida alta, diz Kennedy, e procuram no país empregadores dispostos a pagarem seus empréstimos estudantis. Aquelas que encontram emprego em Connecticut podem ser impedidas de praticar a função na capacidade máxima possível.

Cathy Parisi é diretora do Centro de Parto e da Mulher de Connecticut, o único centro de nascimento autônomo do estado. Ela diz que enquanto a legislação de Connecticut autoriza suas enfermeiras-parteiras a praticarem “cuidados abrangentes”, o que inclui a admissão de privilégios em hospitais que credenciam enfermeiras-parteiras, nem todos os estatutos hospitalares refletem os do estado; portanto, alguns hospitais em Connecticut não concedem privilégios de admissão.

“Pequenas coisas como essa são terrivelmente irritantes”, disse Parisi, que sugeriu várias razões possíveis pelas quais os hospitais não permitiriam que uma enfermeira-parteira exercesse toda a sua licença, incluindo a pressão de médicos, equipe médica ou do departamento jurídico do hospital ou, simplesmente, resistência à mudança.

Enfermeiras-parteiras seguem os mesmos padrões de cuidado que os ginecologistas obstetras, mas a diferença na forma como prestam cuidados fez um número crescente de mulheres mudar para o modelo de parteira. O Centro de Parto e da Mulher de Connecticut, que na sua criação há cerca de 25 anos fazia de cinco ou seis partos por mês, agora facilita até 35 por mês e aumentou sua equipe de duas para cinco enfermeiras-parteiras em tempo integral.

Uma de suas pacientes é Teja Brindisi, 25 anos, moradora de Naugatuck, que trocou seu provedor de saúde na metade da primeira de duas gestações de uma clínica de obstetrícia e ginecologia para o Centro de Parto e da Mulher de Connecticut. No seu segundo filho, ela teve um parto natural na água com a ajuda de uma enfermeira-parteira do centro, uma experiência que ela chamou de “incrível”.

Também foi acessível, coberto pelo seu plano de saúde na mesma medida que um parto no hospital assistido por um GO teria sido. Com raras exceções, todos os planos cobrem serviços de parteira, incluindo o HUSKY/Medicaid, embora alguns reembolsem os serviços de parteira a 90% da taxa dos médicos, disse Stephanie Welsh, vice-presidente do afiliado Colégio Americano de Enfermeiras-Parteiras de Connecticut.

“Temos lutado pelo reembolso igual por muitos anos e continuaremos a fazê-lo”, disse Welsh.

Embora o custo para os pacientes normalmente seja o mesmo, quer usem uma enfermeira-parteira ou um GO, elas podem sentir que estão fazendo um negócio melhor com uma enfermeira-parteira.

“Ao ver apenas dois a três pacientes por hora, uma parteira tem tempo para gastar com seu cliente. Os médicos simplesmente não têm tempo em suas agendas para acomodar visitas tão longas para uma mulher de baixo risco”, disse Parisi. Em contraste, a prática da parteira agenda apenas dois a três pacientes por hora.

Os médicos podem gastar menos tempo com os pacientes, mas tendem a aplicar intervenções médicas mais prontamente do que as enfermeiras-parteiras, cujo modelo depende menos de intervenções médicas e mais de educação e comunicação com os pacientes.

“Parteira é uma profissão baseada em relacionamentos. Uma das razões pelas quais provavelmente temos melhores resultados é porque ouvimos as mulheres”, disse Kennedy, da Yale.

Apesar das diferentes perspectivas, muitas parteiras e GO trabalham juntas e relatam um relacionamento amigável.

“Os médicos em minha prática são muito receptivos à contribuição da parteira e realmente valorizam nossa experiência”, disse Welsh, do ACNM, que atende no Hospital de Manchester com seis outras parteiras e 14 médicos.

John Kaczmarek, GO que pratica no Hospital St. Mary e no Hospital Waterbury, disse sobre enfermeiras-parteiras: “Eu aprendi muito com elas; por exemplo, nem sempre precisamos forçar a natureza”.

Mas Kaczmarek foi rápido em reconhecer a hierarquia dentro de sua prática. “[Enfermeiras-parteiras] praticam de forma independente, mas conhecem suas limitações”, disse ele.

“Elas sabem quando pedir ajuda médica”.

Isso pode ser verdade, mas quando se trata de cuidados compassivos, as parteiras parecem não conhecer limites. “Com as parteiras, me senti mais cuidada”, disse DeGraf, de Westchester.

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December 5, 2018

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